Sexta-feira, 18 de Março de 2011

METADE

 

Que a força do medo que eu tenho,

Não me impeça de ver o que anseio.

 

Que a morte de tudo o que acredito

Não me tape os ouvidos e a boca.

 

Porque metade de mim é o que eu grito,

Mas a outra metade é silêncio...

 

Que a música que eu ouço ao longe,

Seja linda, ainda que triste...

 

Que a mulher que eu amo

Seja para sempre amada

Mesmo que distante.

 

Porque metade de mim é partida,

Mas a outra metade é saudade.

 

Que as palavras que eu falo

Não sejam ouvidas como prece

E nem repetidas com fervor,

Apenas respeitadas,

Como a única coisa que resta

A um homem inundado de sentimentos.

 

Porque metade de mim é o que ouço,

Mas a outra metade é o que calo.

 

Que essa minha vontade de ir embora

Se transforme na calma e na paz

Que eu mereço.

 

E que essa tensão

Que me corrói por dentro

Seja um dia recompensada.

 

Porque metade de mim é o que eu penso,

Mas a outra metade é um vulcão.

 

Que o medo da solidão se afaste

E que o convívio comigo mesmo

Se torne ao menos suportável.

 

Que o espelho reflicta em meu rosto,

Um doce sorriso,

Que me lembro ter dado na infância.

 

Porque metade de mim

É a lembrança do que fui,

A outra metade eu não sei.

 

Que não seja preciso

Mais do que uma simples alegria

Para me fazer aquietar o espírito.

 

E que o teu silêncio

Me fale cada vez mais.

 

Porque metade de mim

É abrigo, mas a outra metade é cansaço.

 

Que a arte nos aponte uma resposta,

Mesmo que ela não saiba.

 

E que ninguém a tente complicar

Porque é preciso simplicidade

Para fazê-la florescer.

 

Porque metade de mim é plateia

E a outra metade é canção.

 

E que a minha loucura seja perdoada.

 

Porque metade de mim é amor,

E a outra metade...

Também

 

Ficheiro:Ferreira Gullar crop.png Ferreira Gullar

 

 

Ferreira Gullar, pseudónimo de José Ribamar Ferreira (São Luís, 10 de Setembro de 1930) é um poeta, crítico de arte, biógrafo, tradutor, memorialista e ensaísta brasileiro e um dos fundadores do neoconcretismo.

Em 1950 ganhou o concurso de poesia promovido pelo Jornal de Letras com o poema "O Galo".

No teatro, em 1966, com "Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come" na que é considerada uma obra prima do teatro moderno brasileiro, ganhou os prémios Molière e Saci.

Em 2002, foi indicado por nove professores dos Estados Unidos, do Brasil e de Portugal para o Prémio Nobel de Literatura.

Em 2007, o seu livro Resmungos ganhou o Prémio Jabuti de melhor livro de ficção do ano.

O livro, editado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, reúne crónicas de Gullar publicadas no jornal "Folha de São Paulo" no ano de 2005.

Foi considerado pela Revista Época um dos 100 brasileiros mais influentes do ano de 2009.

Foi agraciado com o Prémio Camões 2010.

(para saber mais, v. http://pt.wikipedia.org/wiki/Ferreira_Gullar)

 

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publicado por elosclubedelisboa às 08:06
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1 comentário:
De elosclubedelisboa a 18 de Março de 2011 às 20:06
RECEBIDO POR E-MAIL:

Não conhecia, mas gostei do poema, expressão da sabedoria da vida, do envelhecimento, que é comum a muita gente, mas que Gullar tem marcada no rosto.
Berta Brás



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