Domingo, 6 de Março de 2011

HISTÓRIA EM LISBOA - 1

 

«Hoje são campos onde foi Tróia» [1]

 

Meava o séc. XVI quando ali, onde começava o juncal na margem do Tejo e nele confluíam as ribeiras de Alcântara e do Alvito, um rico mercador genovês decidiu assentar arraiais mandando construir um casarão a que o povo chamava palácio. Ali desfrutava da brisa nas noites quentes e geria à vista os barcos que tinha por conta, fundeados ao largo, em escala das rotas entre o norte da Europa e os confins do Mediterrâneo. Era a partir daquela enseada que mandava rumar para a Flandres, para Génova ou para o resto daquele mundo.

 

Vivendo em Portugal, entendeu que devia contribuir com os seus cabedais para o bem do reino: fez empréstimo vultoso às tropas de D. Sebastião que zarpavam para Marrocos e tudo perdeu.

 

Anos depois do desastre de Alcácer Quibir, as tropas do rei de Espanha, desembarcadas em Cascais, encontraram-se nas margens daquela enseada com as que eram fiéis ao Rei D. António, Prior do Crato. Ao fim de três dias de luta, foi ali que Portugal chorou.

 

O novo Rei, Filipe, gostou do local e decidiu que quando viesse a Lisboa passaria a residir naquele palácio. Confiscou-o. Sem dinheiro e sem palácio que lhe desse crédito, do genovês nunca mais se ouviu falar.

 

E assim foi que o casarão perto do início do juncal passou a servir de morada aos reis espanhóis em Lisboa. Não vieram cá tanto como gostariam pois a consciência devia dizer-lhes qualquer coisa especial e foi mais o tempo que andaram pela Meseta do que pela foz do Tejo.

 

Frente ao palácio havia um terreiro e já quase sobre a praia o genovês mandara construir as cavalariças e aposentos da criadagem. Do outro lado do caminho que da praia subia para a encosta mandou o rei Filipe I construir um convento e respectiva Igreja para as freiras Flamengas em fuga da reforma calvinista na Flandres. Frente a este, do outro lado do caminho que levava ao longo do Tejo e já sobre a praia, foi construído outro convento, desta feita para as freiras do Monte do Calvário.

 

Morada dos reis Filipes quando por cá passaram, no palácio residiram por períodos consideráveis os Reis D. João IV, D. Afonso VI e D. Pedro II. D. João VI ainda por lá pernoitou uma ou outra vez mas Junot já não quis lá ficar pois achava que o local estava muito exposto a eventuais surtidas inglesas Tejo adentro.

 

 

Do palácio nem a sombra restou; «Hoje são campos onde foi Tróia»

 

Desprezado, cedo entrou em degradação e já então faltaram as verbas para preservar um edifício historicamente tão rico. Foi mais barato demoli-lo e suprir alguma da calista sofreguidão pública por finanças privadas dedicando o local à especulação imobiliária.

 

  

Sobre a praia, as cavalariças do genovês

 

Ao terreiro do palácio chamamos hoje Largo do Calvário, ao juncal que se estendia a partir daquela zona da margem do Tejo chamamos Junqueira, nas cavalariças está actualmente instalada “A Promotora”[2], a Igreja das Flamengas continua aberta ao culto, o convento do Monte Calvário é agora a Academia Superior de Polícia e no sítio onde esteve o palácio... «hoje são campos onde foi Tróia». E nós passamos por lá sem sequer tirarmos o chapéu em sinal de respeito por tanta História que por ali se escreveu. Mas como poderíamos tirá-lo se nem sequer o usamos? É claro que é mesmo só por isso que não demonstramos qualquer respeito pelos locais que atravessamos e pelas pedras que pisamos...

 

 

A Igreja das Flamengas continua aberta ao culto

 

E quanto ao genovês, eu hei-de descobrir-lhe o nome pois não é com esquecimento que se paga uma dívida a quem tanto fez para servir Portugal.

 

Henrique Salles da Fonseca

 

[1] - Padre Raphael Bluteau, 1712

[2] - Sociedade Promotora de Cultura Popular, dedica-se há cerca de um século à instrução das populações, nomeadamente ministrando o Ensino Básico e alfabetizando adultos

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publicado por elosclubedelisboa às 00:10
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5 comentários:
De elosclubedelisboa a 6 de Março de 2011 às 11:07
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Óptimo artigo que implicou bastante investigação.
Obrigado.
Rui Correia de Sousa


De Adriano Lima a 6 de Março de 2011 às 11:53
Bela manhã de domingo só por me ter sido dada a oportunidade de ler este delicioso e suculento pedaço de prosa sobre a nossa história. Muito bem escrito, mas sobretudo muito bem lembrado, evocado e sentido.
Passamos ao lado da cultura e nem ao menos nos damos ao cuidado de lhe “tirar o chapéu”. Fruímos a cidade no que ela tem de superficial e tentador para os sentidos, enchendo hoje em dia os centros comerciais, e nem sequer experimentamos momentos de remorso por trocar o espírito pela matéria com uma desfaçatez tão reprovável. Bem, eu sinto remorso e não poucas vezes, mas nem sempre consigo convencer os meus familiares (mulher, filhas e netos) a trocar, com mais frequência, o conforto e comodidade dum amplo espaço onde tudo de apelativo está ao alcance da mão, por umas caminhadas a pé pelas ruas da nossa história. A minha mulher, porque, coitada, tem dificuldade com as caminhadas a pé muito prolongadas, as minhas filhas e netos, porque, enfim, são jovens, e há reciclagens que levam o seu tempo.
Há aquisições que sobrevêm mais com a idade, como é o meu caso. E a verdade é que a história das nossas cidades é algo que me seduz e comove.
Em Tomar, com muita assiduidade, percorro as ruas do centro histórico, muitas vezes sozinho e a ouvir o eco dos meus passos, porque aquela parte da cidade sufoca hoje em dia no próprio silêncio por ter sido aos poucos esvaziada de vida. Vida que se transferiu para as zonas modernas de ruas largas, prédios novos, cafés confortáveis, lojas bem envidraçadas, mas sem alma, porque esta só é autêntica se não defrauda a própria identidade.
“Pois não é com esquecimento que se paga uma dívida a quem tanto fez para servir Portugal”. Bem dito, Senhor Doutor. Mas infelizmente estamos a esquecer-nos de nós próprios com a sôfrega e irresistível vontade de nos igualarmos aos outros.
O meu muito obrigado.








De elosclubedelisboa a 6 de Março de 2011 às 19:51
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É um encanto assim reviver passadas da história, com o apimentado da ironia sobre a nossa indiferença distraída. Ainda bem que o Dr. Salles nos vai despertando e isso é sempre vida. Mau grado outras preocupações a ter em conta hoje em dia. Como diria Álvaro de Campos "A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
É. Nem a língua já nos safa.
Mas ainda bem que há vozes e mentes que continuam a tentar sacudir-nos deste marasmo triste e sem esperança... Obrigada, professor.
Berta Brás



De João Nobre de Oliveira a 7 de Março de 2011 às 09:18
De facto uma bela descrição e ao mesmo tempo um protesto e denúncia da incúria que vamos vendo campeando por aí. Sobre o que foi um espaço nobre da nossa cidade ergueram hoje uns prédios novos. Desconhecia isso, mas é triste constatar que é ganância que move os homens e que se não fosse a vigilância de uns poucos, se calhar já teriam feito de Lisboa terra queimada, para construir arranha-céus. Também gosto deles mas podem muito bem ser construidos nos sítios baldios que abundam na cidade. Qual o problema de haver uma cidade nova ao lado da cidade antiga?


De elosclubedelisboa a 8 de Março de 2011 às 23:13
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Não apuraste o nome do Genovês? Não seria Biancardi ?
Luís Soares de Oliveira



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