Domingo, 10 de Julho de 2011

A ETERNIDADE DE UMA INSTITUIÇÃO

 (*)

 

Em 14 de Maio, o Real Gabinete Português de Leitura completou 174 anos de existência. Ao correr deste tempo, caiu o Império, foi implantada a República, sucederam-se os governos – e o mundo inteiro passou por transformações e mudanças profundas, desde o traçado da geografia política ao crescimento demográfico, desde os avanços científicos e tecnológicos à economia e às estruturas sociais, desde as crenças e os costumes, à produção e à riqueza.

 

Poucas são as instituições que conseguem atravessar um ciclo existencial tão longo, sem perderem a identidade ou desaparecerem, principalmente quando não têm escoras oficiais para serem sustentadas. Fenómeno idêntico acontece com as famílias, quando morrem os patriarcas; ou com as empresas, quando perdem os fundadores e os pioneiros. Quase sempre definham e extinguem-se.

 

Por isso, não deixa de ser notável que uma associação, fundada poucos anos depois de proclamada a Independência do Brasil, por algumas dezenas de emigrantes portugueses, com a finalidade de difundir a Cultura e o Conhecimento entre aqueles compatriotas que chegavam ao país de destino com “poucas letras”, tenha resistido às transformações e reformas que moldaram o Brasil que somos hoje.

 

Na base deste fenómeno de sobrevivência – íamos escrever “milagre” – do Real Gabinete Português de Leitura, podemos apontar diversas causas, mas duas foram fundamentais e permanentes: o húmus do patriotismo e o preceito da gratidão. O primeiro, fez com que uma comunidade reunisse e colocasse ao alcance de qualquer um do povo o melhor que o génio lusitano já produziu: a criação de seus escritores, o cântico da sua Epopeia e a alquimia da sua Arte. Para isso, juntou livros e manuscritos, obras raras e cimélios quinhentistas; reproduziu em pedra de liós, no centro da Cidade, os recortes manuelinos do Mosteiro dos Jerónimos; e construiu um “templo camoniano” para louvar todos aqueles “em quem poder não teve a morte”.

 

Essa é a expressão do patriotismo e o culto da lusitanidade que atravessaram gerações. Tudo se fazia no Real Gabinete Português de Leitura por amor e para louvação da terra de origem: as obras adquiridas, os patrimónios investidos, as colecções guardadas. Mas a juntar-se a esse húmus patriótico estava uma segunda causa, que foi o reconhecimento ao Brasil. Este, senhor de seu destino desde 1822, continuava a receber, todos os anos, milhares de portugueses, que vinham realizar seus projectos de vida. Nas pedras rosadas da fachada; nas estátuas dos Poetas e dos Navegadores; nas estantes dos livros e nas pinturas de José Malhoa; no Salão dos Brasões e no “Altar da Pátria”, na “Clavis Prophetarum” do Padre António Vieira e na edição “princeps” de “Os Lusíadas”; nos autógrafos do “Amor de Perdição”, e do “Amor só tu por amor” de Machado de Assis – estavam patentes os símbolos da gratidão dos portugueses ao País de acolhimento. E como essa gratidão é eterna, também eterno será o Real Gabinete Português de Leitura: ontem, considerado “sacrário” dos emigrantes que chegavam, hoje, transformado em “oficina” dos mestres e dos jovens que gostam do “Portugal a haver”.

A. Gomes da Costa

Presidente da Federação das Associações Portuguesas e Luso Brasileiras

In Revista Lusofonia, São Paulo

 

(*)http://www.google.pt/imgres?imgurl=http://www.djibnet.com/photo/2294823350-real-gabinete-portugues-de-leitura.jpg&imgrefurl=http://www.djibnet.com/photo/leitura/real-gabinete-portugues-de-leitura-2294823350.html&usg=__zgIPZbHhJrgAxOgCr-j_dgOjmLw=&h=474&w=500&sz=168&hl=pt-PT&start=17&sig2=ywvptUPxlKQ5veP2BuPOCg&zoom=1&tbnid=rr4RcnSY3pcUwM:&tbnh=114&tbnw=136&ei=WUIZTprvDcGO8gPv54gs&prev=/search%3Fq%3DReal%252BGabinete%252BPortugu%25C3%25AAs%252Bde%252BLeitura%26um%3D1%26hl%3Dpt-PT%26sa%3DN%26biw%3D1093%26bih%3D538%26tbm%3Disch&um=1&itbs=1&iact=hc&vpx=659&vpy=208&dur=53&hovh=219&hovw=231&tx=116&ty=195&page=2&ndsp=18&ved=1t:429,r:4,s:17&biw=1093&bih=538

publicado por elosclubedelisboa às 06:59
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