Terça-feira, 5 de Julho de 2011

Gregório de Matos, o "Boca do Inferno",

Gregório de Matos (Salvador, 1636 – Recife, 1695)

 

Foi o maior poeta do barroco brasileiro

 

 

Que falta nesta cidade? Verdade.

Que mais por sua desonra? Honra.

Falta mais que se lhe ponha? Vergonha.

O demo a viver se exponha

Por mais que a fama a exalta

Numa cidade onde falta

Verdade, honra e vergonha.

 

Assim Gregório de Matos abre um poema criticando a Bahia de seu tempo. A sátira política tornou-se uma das vertentes mais conhecidas da sua obra poética. Era o terceiro filho de um fidalgo português, estabelecido no Recôncavo baiano como senhor de engenho e de uma brasileira. Ao contrário dos irmãos mais velhos que não se adequaram aos estudos e se dedicaram a ajudar o pai na fazenda, Gregório recebeu instrução na infância e adolescência e foi enviado para a Universidade de Coimbra onde se bacherelou em direito. Terá sido juiz do Cível, de Crime e de Órfãos em Lisboa durante vários anos. Na Corte portuguesa, envolveu-se na vida literária que deixava o maneirismo camoniano e atingia o barroco, seguindo as influências espanholas de Gôngora e Quevedo. Por essa ocasião, teria também casado e tido acesso ao rei D. Pedro II de quem ganhou simpatia e favores.

 

"Anjo Bento"



Destes que campam no mundo
Sem ter engenho profundo
E, entre gabos dos amigos,
Os vemos em papafigos
Sem tempestade, nem vento:

Anjo Bento!

De quem com letras secretas
Tudo o que alcança é por tretas,
Baculejando sem pejo,
Por matar o seu desejo,
Desde a manhã té à tarde:

Deus me guarde!

Do que passeia farfante,
Muito prezado de amante,
Por fora luvas, galões,
Insígnias, armas, bastões,
Por dentro pão bolorento:

Anjo Bento!

Destes beatos fingidos,
Cabisbaixos, encolhidos,
Por dentro fatais maganos,
Sendo nas caras uns Janos:
Que fazem do vício alarde:

Deus me guarde!

Que vejamos teso andar
Quem mal sabe engatinhar,
Muito inteiro e presumido,
Ficando o outro abatido
Com maior merecimento:

Anjo Bento!

Destes avaros mofinos,
Que põem na mesa pepinos,
De toda a iguaria isenta,
Com seu limão e pimenta,
Porque diz que o queima e arde:

Deus me guarde!"

 

 Recebido por e-mail, Autor da súmula não identificado

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publicado por elosclubedelisboa às 08:03
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