Quarta-feira, 8 de Junho de 2011

MAIS HISTÓRIAS DO SÉCULO... REPASSADO!

 

 

Coisas e histórias de Camilo

 

Nestas pequenas histórias, com graça, que a seguir se contam, entram algumas personagens portuguesas, do século XIX, bem conhecidas até hoje!

 

 

O cão do Camillo.

Num dos seus manuscritos, conta Francisco Gomes de Amorim:

“Camillo Castelo Branco veio a Lisboa em 1858 e trazia um enorme cão de gado que foi cobiçado por Alexandre Herculano. Camillo voltou para o Porto e ali recebeu de um certo Soromenho (creatura de H.) a insinuação para que offerecêsse o seu cão a A. H. (Alexandre Herculano) que m.to lho agradeceria. Camillo mandou logo o cão e H. em recompensa propô-lo na Academia Real de Sciências para sócio correspondente. Camillo foi proclamado
por Herculano um homem dos de maior talento do paiz (e realmente o tem). Mas o mais engraçado é que Camillo teve saudades do cão, a quem devia já a honra de o ter feito academico, e voltando a Lisboa pediu-o emprestado a Herculano. E nunca mais lho mandou. Este agora prega contra elle e manda procramá-lo um grande patife!!!

 

 

Alexandre Herculano
num postal da

Union Postale Universelle

(adivinha-se a sua assinatura)

 

*****

 

Excerto duma carta de Camilo a seu amigo José Barbosa e Silva

 

“Meu caro Barbosa

A tua requisição do colete veio desatar um nó górdio, do qual, e para o qual eu tinha sido um Alexandre tão desasado quanto vais ver da exposição dum joguinho em que tu perdeste, como o boticário de Tolentino.

Foi o caso. Entre o meu fato aparecia um colete preto que revelava uma barriga como a que tenho sonhado nas minhas ambiciosas aspirações a presidente de câmara de S.Tirso onde espero comprar quatro courelas que me dêem censo e senso.

Perguntei dez vezes à D. Eufrásia e à estúpida filha que diabo de colete era aquele. Responderam-me que tal qual viera num dos meus baús de Lisboa. Teimei que não era meu, redargüiram-me que eu talvez por engano o enfaixasse com a minha roupa. O engano parecia-me parvoinho; porém, como à saída do Hotel Central o meu baú foi arranjado por uma criada, supus que algum hóspede pagou a inadvertência da criada.

Nesta conjecturas tomei posse do colete, e mandei-o enfaixar com outra roupa condenada a uma venda inglória e obscura em casa de onzeneiro adelo. Tristíssima sorte foi a do teu colete, meu caro Barbosa.
Chora-o, como eu o chorei, quando o adelo me mandou há pouco dizer que um passageiro incógnito lho comprara. Sabes agora a esperança que me resta? É engordar suficientemente para servir de molde ao alfaiate, e mandar-te fazer um colete que desbanque o outro na finura do lemiste, e na recherche da abotoadura. Entretanto fulmina com toda a tua iracunda a estupidez da filha da D. Eufrásia, à qual a mãe já transmitiu quatro solenes bofetadas por causa do colete. Se me não levas a mal escreverei um necrológio ao tão ignobilmente perdido colete, depois de lhe teres fadado tão alto destino, como o de aparecer no Chiado, e roçar as colchas admascadas dalguma condessa de porcelana, ou de biscuit que é mais delicado.”

 

Do livro “Correspondência de Camilo Castelo Branco” – Obras de
Alexandre Cabral, Vol II.

 

*****

 

Mais duas histórias contadas por António Arroyo:

 

“Os padres levavam por vezes muito longe a sua ignorância e inconsciência. Numa aldeola das margens do Douro, a montante de Entre-os Rios,
assisti eu a um baptisado, há mais de quarent’anos. O padre, já edoso, tossia.
Apesar disso, segundo o ritual, depois de ter mecanicamente lido uns latins, passava um dedo molhado na sua saliva pela boca do pequenino que, poucos dias depois, morria de coqueluche, ou coisa que o valha. Nessas terras vivia-se então na idade média. Ninguém acreditava em micróbios; ninguém os vira.

 

*****

 

Curioso exemplo de vergonhosa superstição em “matéria medica”, o seguinte caso que tive varias ocasiões de observar numa humilde freguesia do baixo Alentejo. Aí por 85 ou 86, adorava-se na matriz da terreola um santo, não sei já se de barro, se de madeira, “que tinha virtude contra a raiva”. Cão danado, pessoa ou animal mordido por ele, era levado ao abade, desbocado borrachão já hoje falecido, que aplicava a mais rápida cura. O santo
tinha na cabeça um buraco onde ele metia um pedaço de pão que primeiro mastigava. Passado “o tempo necessário”, partia o pão em dois, dava metade a comer ao paciente e conservava a outra metade no buraco do santo até que o “vírus” perdesse a energia.

Uma ocasião disse-lhe que era triste abusar-se assim da pobre gente, explorando-lhe a credulidade.

- O snr, quer que eu morra de fome? Gritou ele; a terra não dá nada. Isto é uma miséria.

Só dava para ele se emborrachar.”

 

Do livro “Singularidades da Minha Terra”, 1917.

 

 

Rio de Janeiro, 30/Jan./2011

 

Francisco G. Amorim-IRA.bmp Francisco Gomes de Amorim

 

publicado por elosclubedelisboa às 09:58
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2 comentários:
De elosclubedelisboa a 8 de Junho de 2011 às 17:18
RECEBIDO POR E-MAIL:

Tudo tão tosco! Tão à medida das nossas mediocridades, e das nossas vaidades irritadas e irritantes... até mesmo nos da pluma modeladora do nosso incumprimento!
Berta Brás


De elosclubedelisboa a 10 de Junho de 2011 às 18:04
RECEBIDO POR E-MAIL:

Óptimo
Luís Soares de Oliviera


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