Segunda-feira, 6 de Junho de 2011

O COMBOIO INEXISTENTE

 

 

Quando acabou de arrumar a bagagem, modesta, Antero sentou-se. Era o único passageiro do compartimento, mas este seria, seguramente, um luxo efémero. Lá fora, uma chuva miúda erguia uma cortina de poeira, através da qual uma luz tímida se infiltrava. Para lá dela pressentia-se talvez a extensão rumorosa do mar nesse início de Setembro. E perpassava em tudo um difuso sentimento de abandono e de perda, uma nostalgia sem razão aparente. Ou talvez a sua razão única e suficiente fosse precisamente o facto de alguém entrar num comboio e preparar-se para partir; neste caso, qualquer estação seria sempre um lugar de melancolia. Mas também isso não era assunto definitivo.

 

Não estava ele ali, pronto a arrancar e levado por um projecto optimista que o enchia de esperança no futuro e nos trabalhadores da sua ilha?

 

Na plataforma em frente, havia agora uma agitação mais acentuada, os passageiros cruzavam-se desordenadamente, nalguns casos as malas chocavam entre si e o som que provocavam esbatia-se contra o gesto e o olhar irritado de quem se sentia perturbado na sua marcha. Um novo passageiro entrou no compartimento. Deixou no ar uma saudação esquiva e sentou-se também, mergulhando na leitura do jornal. Antero pôde, por isso, reparar nos seus olhos claros sobre um rosto oblongo e no tom ruivo da barba e dos cabelos crespos. Traços não muito vulgares a sul, antes fariam pensar num remoto parentesco flamengo. Mas a associação talvez fosse uma simples consequência das indagações que desenvolvia sobre a própria ascendência.

 

Não esperava grande troca de palavras com o homem diante de si, um pouco à esquerda. O Castelo Branco gostava de repetir que o comboio veio combinar o desfrute da paisagem com o gosto da conversação. Mas a paisagem em si mesma não comovia Antero por aí além; melhor dizendo, só o comovia enquanto objecto já transfigurado pela imaginação lírica. E, quanto a conversas, sentiu de súbito uma saudade imensa e funda do Castelo Branco. Precisava tanto de tê-lo ao seu lado naquele momento, com a têmpera de combatente e a força do coração que lhe davam ânimo e fulgor, quando ele, Antero, se via frente a frente com a realidade. Que falta lhe fazia o Castelo Branco! Só ele lhe preenchia o vazio de senso prático e sabia traçar os rumos concretos para as suas construções abstractas; só no seu ombro encontrava apoio, quando em redor todos os mundos ruíam em cadeia. Um ligeiro soluço marcou o arranque do comboio, depois um andamento hesitante e, finalmente, a marcha normalizada. As imagens do exterior deslizavam sobre a janela como o cenário de um sonho que ele próprio tivesse inventado.

 

O desconhecido esboçou, então, um início de comunicação, com umas frases entrecortadas e quase em surdina. E deixou no ar um nome, de que Antero apenas reteve o extremo final, Del Giudice. Sentiu um ligeiro estremecimento interior, a sonoridade fê-lo pensar em Garibaldi… o velho sonho de alistar-se no seu exército. Onde isso já ia… Mas decorreu ainda algum tempo antes que um e outro pudessem chegar ao ponto de falar dos motivos ou acasos da vida que os tinham feito encontrar-se no compartimento de um comboio.

 

– Vou à procura de uma mulher que saiu de casa atrás de um verso de treze sílabas – declarou Del Giudice, enquanto tentava surpreender no rosto do outro o efeito dessa confissão.

– Não creio que seja uma boa razão para viajar.

– A da mulher ou a minha?

– A sua. Perseguir um verso pode ser um projecto de vida, mesmo que se trate de um verso funesto. Mas lançar-se no encalço de uma mulher por causa disso já me parece intriga de novela de mistério.

 

E se fosse mesmo? E se um homem decidisse refazer no terreno o roteiro de uma personagem, deixando-se guiar por ela, tentando decifrar aquilo que o seu olhar e o do perseguidor tinham entrevisto? Mesmo sabendo que, no final, a mulher continuará por encontrar.

– O desfecho seria decepcionante.

– Não acho. A própria viagem já seria uma conquista. – E depois de uma breve hesitação: – Mas continuo sem saber que razão ou razões o levam a partir...

– Observações, apenas. Quero avaliar as possibilidades do comboio como meio de propaganda e difusão da revolução. Esta formidável invenção dos tempos modernos poderá contribuir para o esclarecimento e a libertação do povo proletário. Não esqueço que foi através do comboio que a minha geração tomou contacto com as preocupações intelectuais e sociais do seu tempo. Gostaria de lançar esse projecto na minha ilha.

– Não deixa de ser uma utilização extravagante do comboio.

– Já imaginou o que seria percorrer de comboio uma ilha industriosa como a minha, promovendo sessões com os trabalhadores, levando-lhes as luzes da revolução e fazendo-os aderir às grandes causas e noções de hoje?

– E eles estarão dispostos a isso? No final, o desfecho da sua viagem futura talvez venha a ser mais decepcionante que o meu. Vou atrás de uma mulher que existe, e para sempre, desde o momento em que um autor lhe deu vida pela escrita. Você vai atrás de uma vaga figura possível, a revolução. Uma figura tão abstracta como os deuses que você rejeita e para os quais encontrou um sucedâneo que é a sua cópia.

– Aí é que se engana. Com o empenhamento dos espíritos esclarecidos e a preparação da consciência pública, a revolução será uma realidade concreta, transformando a sociedade no ponto de vista político, económico e religioso!

– Gostaria de partilhar desse entusiasmo, mas não é fácil. Aliás, já vi escrito em qualquer lado que uma única revolução é possível ou antes inevitável em Portugal: é a revolução anárquica da fome, mas essa não precisa que ninguém a promova, nem pode ser matéria de programas políticos.

– Todos nós passamos por momentos de desânimo – condescendeu Antero, por fim, antes de os dois se remeterem de novo ao silêncio.

 

O comboio atravessava agora uma zona de neblina que reduzia o mundo exterior a uma tela cinzenta, sobre a qual um perfil de fantasma irrompia, a espaços, para logo se esfumar na voragem da velocidade. O rumor regular dos rodados produzia no compartimento uma atmosfera de bolha submersa, incapaz de subir à superfície. Sem o saberem, avançavam ambos como se a noite fosse um destino.

 

  Urbano Bettencourt

 

 

Manuel Urbano Bettencourt Machado nasceu na Ilha do Pico, freguesia da Piedade, concelho das Lajes. Completou os seus estudos secundários no Seminário de Angra, ilha Terceira. Em 1975 ingressou na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde obteve a Licenciatura em Filologia Românica. Foi

Professor de Português e Francês nas Escolas da Amora, Bela Vista (Setúbal), Lagoa e Antero de Quental, entre os anos lectivos de 1980-1990. Desde 1990 lecciona na Universidade dos Açores, as disciplinas de Literatura Portuguesa, Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, entre outras. Têm-lhe merecido particular atenção as literaturas insulares, sobre as quais já proferiu conferências a em Cabo Verde, Madeira, Canárias e Açores.

 

Colaborador da imprensa desde muito jovem, ficou ligado ao suplemento «Glacial», de A União, jornal terceirense em que viria a alargar a sua participação através dos suplementos «Juvenil» e «Cartaz», nos anos de 1972-1974, altura em que cumpria serviço militar obrigatório na Guiné.

 

No final dos anos 70 dirigiu em Lisboa, juntamente com o poeta J. H. Santos Barros, A Memória da Água-Viva (revista de cultura açoriana).

 

Colaboração frequente em revistas da especialidade, no país e no estrangeiro.

publicado por elosclubedelisboa às 00:12
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