Quinta-feira, 2 de Junho de 2011

RICARDO SEVERO – 8

 

 

DISCURSO EM 3 DE SETEMBRO DE 1968 NA POSSE DE SÓCIO DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE SÃO PAULO, PELO CÔNSUL-GERAL DE PORTUGAL DR. LUÍS SOARES DE OLIVEIRA TENDO COMO PATRONO RICARDO SEVERO

 

 

 

O respeito pelo passado leva-o imediatamente a inspeccionar o Museu Paulista de Archeologia e a discordar. A vontade, sentindo que português no Brasil não é estrangeiro, e que, por isso mesmo, deve dar o seu melhor contributo a esta Pátria que ama e venera tanto como a sua, sai a público no «Correio Paulistano» a formular as suas críticas e sugestões acerca do museu que visitou. Vê-se envolvido em polémica mas as suas observações não caíram em «saco roto». Foram atendidas e nasce o «Museu Histórico do Ipiranga».

 

Em Ricardo Severo manifestou-se sempre esta urgente necessidade de participar, de colaborar, de partilhar com o seu semelhante o seu quinhão de saber, de energia e de amor. Foi este impulso magnânimo que o levou mais tarde a assumir a direcção do Liceu de Artes e Ofícios, continuando assim a benemérita e patriótica obra de grandes paulistas como Cerqueira César, Teixeira da Silva, Gabriel Fransen, Leôncio de Carvalho, Reynaldo Porchat, Mello e Sousa e do seu próprio associado Ramos de Azevedo. Mais tarde, obedecendo sempre os mesmos propósitos e natural pendor de espírito, colaborou com Alcântara Machado e António Piccarolo na fundação da primeira Faculdade Livre de Filosofia, Ciências e Letras como seminário dos futuros professores do ensino secundário.

 

De parceria com Ramos de Azevedo, lança-se ao estudo da arquitectura e da habitação nos climas quentes a fim de determinar um dos pontos cardeais do seu novo estilo. Estudou a arquitectura do indígena brasileiro e a de outras civilizações estabelecidas em climas semelhantes. Ao índio, louva o aparelho de materiais argilosos, a taipa, excelente isolante; ao caboclo, para a uniformidade que deu à arquitectura em todo o solo brasileiro; do português, aproveita a adaptação que fez das suas exigências sociais às exigências do clima brasileiro, criando a casa tipo colonial, vasta, de amplas acomodações, rectangular, de sobrado erguido sobre embasamento de pé direito inferior ao do andar, onde tudo concorre para arejar e moderar os efeitos excessivos do clima externo, com a sua varanda alpendrada servindo de ligação suave e acolhedora entre o exterior e o interior. Verifica que o português adaptou o aparelho de taipa do índio e do caboclo – a que mais tarde adicionou a cal – apenas reforçado para suportar a estrutura maior. «E tão hábeis se fizeram os construtores de taipa que em grandes igrejas ergueram muros de 25 metros de altura com 2,20 metros de espessura na base», comenta em admiração o engenheiro do século XX. Na cidade, desprovida de árvores frondosas, verifica que o português diminui o tamanho das janelas, reduzindo-as a frestas, ou defende-as com aplicação de gelosias à maneira árabe, prolonga o beiral do telhado, simplifica o barroco joanino deixando-o reduzido ao enunciado das suas curvas, em arco simples. No seu estudo, os dois mestres aprovam o tipo de habitação «defendida da intensidade da luz e do calor, ao mesmo tempo recortada e vasada, multiplicando as superfícies de insolação e arejamento, permitindo os abrigos sombrios e a ventilação natural, pelo contraste das temperaturas e, por sua vez, facilitando a vida doméstica ao ar livre isolada do tumulto exterior das ruas». Revestem-se ainda hoje de actualidade impressionante as conclusões dos dois insignes mestres.

 

(*)

 

1 – A casa da fazenda (sobrado), segundo o padrão colonial, realiza quanto à forma um tipo de habitação salubre, susceptível de melhoramentos e perfeita adaptação ao clima e ao regime actual.

 

2 – Devem ser abandonadas as disposições de hotéis ou casas em grandes maciços fechados.

 

3 – O sistema de pavilhões isolados para as habitações colectivas realiza uma solução perfeita adaptável com todas as vantagens aos climas quentes.

 

4 – As fachadas de cimento armado de fina espessura devem ser construídas com paredes duplas.

 

5 – A casa deverá ter um embasamento com altura bastante para isolamento e ventilação do solo e do pavimento que se lhe sobrepõe e um telhado de elementos isolantes que proporcionem uma fácil e completa ventilação do sub-tecto.

 

(continua)

 

 Luís Soares de Oliveira.bmp Luís Soares de Oliveira

 

(*)http://www.google.pt/imgres?imgurl=http://vitruvius.es/media/images/magazines/grid_9/81b4_021-01-05a.jpg&imgrefurl=http://vitruvius.es/revistas/read/arquitextos/02.021/807&usg=__WNlY5wa8bj9QvR52MtYZxsk0vH4=&h=232&w=300&sz=46&hl=pt-PT&start=0&zoom=1&tbnid=by142pnaZJbruM:&tbnh=127&tbnw=164&ei=G5TnTdhyjYCFB86-7bUK&prev=/search%3Fq%3DRicardo%252BSevero%26um%3D1%26hl%3Dpt-PT%26sa%3DN%26biw%3D1007%26bih%3D681%26tbm%3Disch&um=1&itbs=1&iact=rc&dur=131&page=1&ndsp=23&ved=1t:429,r:8,s:0&tx=96&ty=79

publicado por elosclubedelisboa às 09:29
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