Quarta-feira, 11 de Maio de 2011

RICARDO SEVERO – 5

  (*)

Dolmen de Matança

 

 

DISCURSO EM 3 DE SETEMBRO DE 1968 NA POSSE DE SÓCIO DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE SÃO PAULO, PELO CÔNSUL-GERAL DE PORTUGAL DR. LUÍS SOARES DE OLIVEIRA TENDO COMO PATRONO RICARDO SEVERO

 

 

Além dos estudos antropométricos e de etnogenia, Ricardo Severo preocupou-se sobretudo com a génese civilizacional. Dois aspectos, em particular, atraíram a sua atenção: os objectos artísticos e as necrópoles.

 

Da pesquisa sistemática dos túmulos megalíticos colhe a certeza que o homem começou a desenvolver muito cedo a crença na vida futura e a ter preocupações de natureza ontológica. Em torno destas antas que Ricardo Severo ia descobrindo «palmilhando os carreiros tortuosos do Norte de Portugal, acompanhado pelo almocreve folgazão e fiel e pelo canto dolente das cotovias», o pesquisador encontra as primeiras manifestações «culturais» do povo. Quando contempla esses monumentos gigantescos erguidos contra o firmamento, «nas tardes de poentes arroxeados e serenos», enquanto o toque das ave-marias sobe dos campanários dos vales, ecoando pelas serras como litanias de órgão em uma imensa catedral» o nosso viajante compreende o enorme traço de união que liga os contemporâneos habitantes da terra a esses rudes primitivos de longínquas eras que, através do culto diferente na forma, manifestavam já a mesma adoração pelo maravilhoso que momentaneamente lhes deu o ser para, depois, os voltar a fixar no solo em que se integraram os restos dos seus antepassados.

 

«Sente-se», dizia-nos Severo, «que nessas construções tumulares de ciclópico aparelho, estão os alicerces duma pátria». E com que cuidado e carinho estuda os alicerces dessa pátria. Vasculha-lhe os segredos, esquadrinha-lhe os cantos, desenterra os vestígios e inventaria os mais simples e aparentemente irrelevantes indícios. A sua tarefa é reconstituir, interpretar, compreender e amar. Ora, é o utensílio de pedra que acompanhou o defunto para a sua vida futura, ora o amuleto simbólico que o protegeria na entrada do Além, ora ainda os sinais de pompa e consagração.

 

«Aqui há mais do que um amontoado irregular de grandes pedras. Estes são os primeiros sinais de fraternidade humana», observou. Em torno do culto dos mortos, nessas necrópoles, constituem-se os corpos de crenças e lendas que a massa popular ingénua e franca conserva e transmite de gerações em gerações, enriquecendo-o com o resultado da experiência de cada uma delas. Forma-se um fundo escuso de fantasmagorias e mitos em que se condensa o génio da raça. Severo recebe essa mensagem, projecta-a no tempo e percebe, na sua consciência esclarecida, o tesouro e a alma da pátria. Ele pôde discernir o que foi o acrescento imposto pelo romano ou a impressão deixada pelo árabe e reconhecer assim a cepa lusitana, ibero-ligure, em que essas formas se vieram inserir para integrar a personalidade única da grei.

 

Desde os mais remotos tempos que a necrópole se situa fora do castro fortificado. Sabido, pelo testemunho dos historiadores coevos, que as tribos lusitanas se guerreavam ferozmente entre si, o facto de não cuidarem da defesa dos tesouros  retidos no dólmen, significa que há um princípio de cultura comum, baseado no respeito colectivo em toda a Lusitânia aos antepassados e à sua última morada.

 

O dólmen vem-se enriquecendo com aquisições do homem, através dos tempos e representa os progressos das idades do cobre, do bronze e do ferro. Ao dar a entrada na necrópole, o artificial incorpora-se na tradição e passa a fazer parte integrante do património natural do povo. É a sua consagração.

 

Aqui estão em Severo as verdadeiras fontes da cultora portuguesa. A sucessão desses monumentos em solo português conta-lhe a história da persistência de um povo arreigado às suas convicções. A influência romana não atinge senão superficialmente a citânia e o castro e Ricardo Severo ainda pôde encontrar no regime comunitário pastoril que perdurou nas regiões montanhosas as marcas do triunfo final do Lusitano. A fusão com o romano – do mesmo fundo etnológico ligure – dá-se nas vilas edificadas nos vales e nas planícies. A montanha continuará a ser vestal da orotodoxia lusitana. Livre do romano, o lusitano assenhoreia-se da vila, adapta as instituições e liga-se ao nexo original. O cristianismo, ao contrário, sobe do vale à montanha mas não para destronar um culto, apenas para o reformular e enriquecer. A Igreja ou a Ermida continuam fora do castro e servem de sepultura aos mortos. O ritual adquire novas formas e significado e integra as anteriores.

 

(continua)

 

Luís Soares de Oliveira.bmp Luís Soares de Oliveira

 

(*) http://3.bp.blogspot.com/_VTwPRjptxeI/TJaDnGC6q6I/AAAAAAAAAbA/TLOypAm5ddM/s1600/D%C3%B3lmen_de_Matan%C3%A7a%5B1%5D.jpg

publicado por elosclubedelisboa às 19:49
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