Segunda-feira, 9 de Maio de 2011

RICARDO SEVERO – 2

 

 

DISCURSO EM 3 DE SETEMBRO DE 1968 NA POSSE DE SÓCIO DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE SÃO PAULO, PELO CÔNSUL-GERAL DE PORTUGAL DR. LUÍS SOARES DE OLIVEIRA TENDO COMO PATRONO RICARDO SEVERO

 

 

A ÉPOCA

 

Mesteiral ele começou preparando-se com afinco para o estudo do mundo que o cercava. Depois de uma formação em humanidades, preparou o seu espírito para a prática das ciências exactas licenciando-se em Engenharia pela Escola Politécnica do Porto, em 1890. Obteve assim um equilíbrio perfeito entre os arroubos de uma imaginação fértil e os cânones rigorosos da disciplina do verdadeiro cientista, binário que através da sua intensa actividade havia de produzir resultantes valiosas. Ainda estudante, o fenómeno português interessa-o. Os infortúnios que a Pátria conhece impressionam-no e deixam no seu espírito sulco profundo. O estudante Severo sente a inquietação da mocidade do seu tempo, frustrada no seu desejo de fazer ressurgir a Pátria mais vencida pelo nihilismo derrotista, herança de uma geração de demolidores sem propósito.

 

Ainda cedo, aproxima-se de Antero de Quental e incorpora-se no seu Centro Patriótico, mais tarde fechado pelas Autoridades. Busca em Antero as respostas mas Antero não é senão um intérprete de teorias que lhe parecem deslocadas do condicionalismo do problema da pátria.

 

A geração de Antero: Gomes Leal, Guerra Junqueiro, Eça de Queiroz e até Oliveira Martins representaram na poesia, no romance, na História e na filosofia portuguesa a intervenção do pensamento europeu, especialmente das escolas alemã e francesa. Se eles se mantiveram portugueses na sensibilidade e na expressão, foram contudo alheios na inteligência. Racionalistas, entenderam que o povo, massa destituída de opiniões críticas, que se orienta pela fé ou pela descrença, estava superado nume época em que o acelerado progresso material tendia a substituir rapidamente o natural pelo artificial no condicionamento mesológico do homem. A verdade, o futuro, o manancial de ensinamentos válidos, estariam assim com as elites esclarecidas. Por amor destas atitudes,  a nação alheou-se da sua realidade, quando não procurava escondê-la: importaram-se doutrinas e ninguém cuidou de averiguar se as aquisições se coadunavam com a índole da nação. O povo recolheu-se no seu património espiritual e divorciou-se das suas elites. A nação entristeceu, perdeu o elã vital e caminhou aos tropeços até se quedar desorientada, vencida sem batalha. A pátria lusitana amarrava o carro da sua vocação única ao cavalo da inspiração alheia: parecia condenada. A formação científica de Ricardo Severo dá-lhe a perfeita percepção do fenómeno. Engenheiro, ele sabe que o artificial foi sempre parte integrante do património do povo, que o usa como se natural fosse, com uma certeza e exactidão que muitas vezes falta aos senhores da razão pura. Ele sabe que a fé ou as descrenças do povo, por não serem críticas, não são por isso mais falíveis; as suas formas, por integrarem a experiência empírica do passado, constituem-se em sabedoria que dispensa especulação.

 

Ao transmitir o seu facho, a geração de 70 parecia ter reparado no erro. Eça de Queiroz – que sorveu o cálice do artificialismo e do elitismo até à esterilidade fradiquiana – prepara em «A Cidade e as Serras» o regresso penitente à cãs paterna; Oliveira Martins, com o seu dom de ver e descrever interiores de alma, tinha feito na sua história a primeira tentativa para retratar a alma do povo português. Voltava-se à tradição de Garret que, com a sua superior intuição, abarcara e descerrara brilhantemente o que havia de essencialmente português no nosso génio e na nossa história e também à de Herculano, menos brilhante mas mais erudito, que rebuscou tenaz e estoicamente a génese da nacionalidade portuguesa.

 

Severo, por sentimento e imaginação, estava com os românticos; todavia, a sua formação exigia-lhe uma sólida base científica para fundamentar a sua intuição: ele era português mas queria ser conscientemente português.

 

(continua)

 

 Luís Soares de Oliveira.bmp Luís Soares de Oliveira

publicado por elosclubedelisboa às 00:10
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Agosto 2011

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

14
15
16
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30
31


.posts recentes

. TE DEUM – JOÃO DOMINGOS B...

. Organização Mundial de Me...

. GALAICO-PORTUGUÊS - LÍNGU...

. MACAU - PADRE RUIZ

. PINTOR ANTÓNIO CASIMIRO

. COISAS DA ÍNDIA - 2

. Beato Diogo de Carvalho

. MUSEU DE ÉVORA

. REPORTAGEM

. “OMENS” SEM “H”

.arquivos

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

.tags

. todas as tags

.links

blogs SAPO

.subscrever feeds