Domingo, 8 de Maio de 2011

RICARDO SEVERO – 1

 Ricardo Severo

 

DISCURSO EM 3 DE SETEMBRO DE 1968 NA POSSE DE SÓCIO DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE SÃO PAULO, PELO CÔNSUL-GERAL DE PORTUGAL DR. LUÍS SOARES DE OLIVEIRA TENDO COMO PATRONO RICARDO SEVERO

 

 

O HOMEM

 

Vinte e seis anos são volvidos sobre a data da morte de Ricardo Severo e ainda assim é impossível viver em São Paulo, sobretudo nos meios ligados à arte, aos estudos históricos – como este sodalício – e a colónia portuguesa, sem sentir a presença da sua sólida cultura, dos seus múltiplos talentos e do seu inveterado amor à Pátria e à Grei. A sua obra está patente e continua a influenciar, tanto na arquitectura, como nos estudos históricos, os trabalhos de contemporâneos. A sua figura vive na imagem dos que o conheceram, transformada agora em símbolo de veneração no altar da saudade.

 

Para os seus contemporâneos, ele foi um oráculo em tudo o que respeitava cultura, erudição, amor à arte e à beleza; o curador mais zeloso das tradições estéticas da raça. Para os seus compatriotas, ele era a maior expressão do carácter português e do desejo de realização característico da sua gente. Para todos, ele foi o amigo, cheio de calor humano e de saudável optimismo, que nunca faltou com o seu amparo e o seu conselho quando e onde lhe foi solicitado.

 

Para ele próprio, porém, nunca foi mais do que um simples «mesteiral de alvanel» que, de quando em quando, pousava o camartelo e a trolha, sacudia da roupa os salpicos de argamassa, para se dedicar um pouco ao culto das boas letras.

 

E o que era no fundo Ricardo Severo? Cientista, historiador, escritor, artista, construtor de novas urbes, mestre do patriotismo (como lhe chamou João de Barros), patriarca da colónia, pioneiro da Comunidade luso-brasileira, como queriam os outros, ou simples mesteiral, como ele pretendia?

 

Ricardo Severo foi tudo isso: atingiu dimensões sublimes na ciência, nas artes, nas letras, na sociedade, apenas porque soube sempre manter perante os fenómenos naturais e sociais que lhe despertavam a sua ávida curiosidade, a atitude humilde de simples aprendiz.

 

Reconheça-se, além disso, que a aparente multiformidade das facetas do seu carácter, dos seus talentos e da sua actividade não traduzem instabilidade de espírito mas, antes pelo contrário, o domínio forte de uma vontade capaz de transformar aspectos e cousas heterogéneas na aparência num todo harmónico, com constância de estilo, de critério e de métodos.

 

Este seu sentido de harmonia global, sem prejuízo da variedade dos componentes, perdura em todas as suas manifestações: seja na sua frase literária que corre, rica de imagens, escorreita de sintaxe, decompondo-se numa variedade de ideias que logo se ligam para nos transmitir com precisão e beleza a intenção do autor; seja na feliz combinação que realizou dos elementos materiais e artísticos da arquitectura do caboclo brasileiro, do aldeão português, da vila romana, so sobrado quatrocentão e até dos elementos do neobarroco da sua época, a cuja influência, apesar do seu elevado sentido estético, não conseguiu inteiramente furtar-se; ou seja, ainda, na sua concepção de tempo. Para ele, passado e presente conjugam-se, entrelaçam-se em perfeita harmonia e o futuro estará indeterminadamente dentro do mesmo quadro; o passado é a realidade, o presente quando for realidade já é passado e o futuro só pode ser consequente. Foi ele quem disse: «no moderno existe mais passado do que presente».

 

A prospecção do passado, que tanto o preocupou, não assim uma manifestação mórbida ou estática do seu espírito. Ao contrário, correspondia a desejo fervoroso de enriquecer o futuro.

 

Ricardo Severo é todo ele um colossal e feliz esforço de síntese. Síntese do saber, do gosto e do viver de uma época; síntese de todo o passado de sua grei; síntese ainda das duas pátrias que serviu e amou: Portugal e Brasil. A sua personalidade é um todo de serena harmonia em que os componentes partem por vezes de pontos bem afastados para, subindo em arcos suaves como os das ogivas das cúpulas que ele construiu, se entrosarem num cume colocado alto, bem mais alto do que a estatura do comum dos homens.

 

(continua)

 

 Luís Soares de Oliveira.bmp Luís Soares de Oliveira    

publicado por elosclubedelisboa às 11:13
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