Quarta-feira, 4 de Maio de 2011

ANGOLA

(*) 

 

Óscar Ribas, o grande e saudoso mestre, de quem tive o privilégio de ser amigo,

 

“Dicionário de Regionalismos Angolanos”

 

 

Ambaquista, s. m. e f. Natural da região de ambaca. Irón. O que reclama de tudo.

 

“Os naturais dessa região são inteligentes. Dum relatório de Artur Verdades, publicado no Boletim Oficial de 1 de Dezembro de 1906, extraímos os seguintes períodos:

“O ambaquista, para mim que o observei, é um benemérito, tem sido um desdenhado obreiro da civilização africana, embryonário quanto seja o seu estado em parte dos nossos domínios.

É elle o único missionário que à noite, por essas sanzalas, sentado ao conchego da fogueira conta, com muito phantasia é certo, aos gentios, que o ro­deiam e avidamente o escutam, as façanhas dos kakis (soldados portuguezes), e quem lhes fala da gran­deza, poderio e explendor de Portugal."

Duma obra que já citámos - As Colónias Portuguesas, de Ernesto e Vasconcelos - transcreve­mos também os seguintes trechos, relativamente ao natural de Ambaca:

"O ambaquista, oriundo de uma região onde a acção missionária foi grande e educadora, procura assimilar-se ao branco pelo traje, e nas famílias con­serva-se, em tradicção de pães para filhos, a leitura e a escripta. Esta circunstância torna-o um indivíduo superior entre as diversas tríbus, às quaes elle se impõe, captando as boas graças de todos, principal­mente dos sobas, em quem impera como conselheiro privativo. É vulgar que certos sobas tenham secretá­rio, o qual munido sempre do seu tinteiro, papel e pena, está constantemente prompto a dirigir mucandas (cartas) ao viajante que passa, ou representações à autoridade. Esse secretário é o ambaquista ladino, manhoso e sophista. Conta-se que tendo os ambaquistas de dirigir ao governo uma representação con­tra certa autoridade provincial, ao assignal-a se le­vantou a difficuldade de quem o faria, primeiro, porque nenhum queria figurar na cabeça do rol; adoptaram por isso o alvitre de inscrever as assignaturas em circunferência de círculo, solução que mos­tra bem a manha de que são dotados." (Castelbranco, História de Angola, p. 34/35, ed. 1932).

"O ambaquista distinguia-se à primeira vista, de qualquer outro indígena, nestas lonjuras - na época em que Ambaca ficava muito longe - pelo tinteiro de chifre e pela pena que trazia ao pescoço.

Com tais artes, cada vez mais aperfeiçoadas e di­vulgadas entre eles, por serem os mais próximos dos centros de influência, não tardaram em serem dispu­tados por todos os potentados indígenas, que os tomavam como secretários de grande luzimento e prestígio - lugares que eles ocupavam como juristas, intelectuais e Cárdias Diabo.

Em menos de cem anos havia ambaquistas espa­lhados por todo o Norte da colónia, com a sua pena, o seu tinteiro de chifre, as suas luzes e o ascendente intelectual que lhe dava o poder de comunicarem com o branco, e com os mais que tinham as mesmas artes." (H. Galvão, Outras Terras, Outras Gentes, p. 216, vol.1 ed. 1942).

"Vou dizer uma palavra do typo clássico, extranho, genialismo, do ambaquista. É molde para durar a eternidade inteira, segundo parece. O seu gosto, ou melhor o seu vício, é deitar as unhas a uma caneta e fazer requerimentos em papel sellado, com citações phantasticas da Carta Constitucional, do Código Civil, da Novíssima Reforma Judiciaria. Se tem um envellope d'officio para fechar aquella sua prodi­giosa literatura, se tem sobretudo um coto de lacre para sellar a sua peça, para lhe dar a imponência e a consagração que resulta de um timbre, ah! como elle é feliz! O ambaquista compõe os seus trechos de uma maneira absolutamente impossível de definir; é capaz de citar, a propósito de qualquer coisa, a carta orgânica das províncias ultramarinas, os governado­res geraes d'Angola, os reis do Congo, a corte do céo, trovoadas, inundações e campanhas. No en­tanto, atravez d'esses despejos incontinentes, d'essas ejaculações tumultuarias do pensamento, adivinha-se quasi sempre o que quer dizer o auctor na sua estylistica. Ao mesmo tempo o ambaquista é um bohemio; encontra-se em toda a parte, a reler pedaços ve­lhos de jornaes ou folhas avulsas de qualquer livro, a dar sentenças, a escrever coisas, a secretariar os so­bas, enfim, a ocupar-se dos destinos dos povos." (D. J. E. de L.Vidal, Por Terras d'Angola, p. 20, ed. 1916).

 

Rio de Janeiro, 18/04/2011

 

Francisco Gomes de Amorim

 

(*)http://www.google.pt/imgres?imgurl=http://3.bp.blogspot.com/_yEum_8cpb_s/TNJoTkgHgjI/AAAAAAAAJBI/a9NquCNm4ds/s1600/002a%2BAngola%2B-%2BCasal%2Bde%2BAmbaquistas%2B(IICT).jpg&imgrefurl=http://torredahistoriaiberica.blogspot.com/2010/11/imagens-muito-antigas-de-angola.html&usg=__vQY3jA2RtYCL2SXuABK8g1BUh9Y=&h=800&w=587&sz=172&hl=pt-PT&start=0&zoom=1&tbnid=_cT2U5qw6mR6QM:&tbnh=119&tbnw=87&ei=zRbBTfCrDsy6hAeUqqm9BQ&prev=/search%3Fq%3Dambaquista%26um%3D1%26hl%3Dpt-PT%26sa%3DN%26biw%3D1021%26bih%3D681%26tbm%3Disch&um=1&itbs=1&iact=hc&vpx=468&vpy=45&dur=1592&hovh=262&hovw=192&tx=114&ty=142&page=1&ndsp=21&ved=1t:429,r:2,s:0

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publicado por elosclubedelisboa às 10:02
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