Domingo, 10 de Abril de 2011

HISTÓRIA EM LISBOA – 5

 Igreja S. Sebastião da Pedreira - Lisboa(*)

Igreja Matriz de S. Sebastião da Pedreira - Lisboa

 

 

O PATRIARCA DA ETIÓPIA

 

 

Da embaixada de D. Rodrigo de Lima (1520-1526) tinham ficado na Etiópia dois dos elementos que a constituíam: o pintor lisboeta Lázaro de Andrade e o médico Mestre João.

 

Em relação ao primeiro pouco se sabe mas quanto ao físico, a situação é, felizmente, bem diversa.

 

De origem galega, João Bermudes embarcou a primeira vez para a Índia em Abril de 1515 na armada de Lopo Soares de Albergaria. Em 1520 desembarcou na Etiópia onde permaneceu até 1535, ano em que viajou por terra de regresso a Portugal. Aqui chegado em 1538, logo decidiu regressar à Etiópia mas acabou retido por doença só regressando à Índia no ano seguinte. Desembarcou novamente na Etiópia em 1541 ali permanecendo até 1559, ano em que regressou definitivamente a Portugal.

 

E o que fez ele durante os 33 anos que viveu na Etiópia?

 

Presume-se que de 1526 a 1535 tenha exercido a sua profissão de físico, aquela a que hoje chamamos de médico.

 

Contudo, em 1535 encontrando-se o Patriarca da Igreja Etíope, Abuna Marcos, moribundo devido à muita idade, o Imperador «pediu» (evidente eufemismo de «mandou») que ordenasse João Bermudes como seu sucessor e futuro Patriarca.

 

De nada terão valido os rogos de João Bermudes junto do Imperador e muito menos os argumentos da sua condição laica junto do moribundo: foi ordenado pelo velho Patriarca e, à morte deste, empossado no cargo pelo próprio Imperador.

 

Nada consta dos registos históricos até hoje conhecidos sobre quaisquer reclamações que os fiéis possam ter feito em relação a alguma irregularidade cerimonial ou sequer a menos ortodoxas argumentações teológicas por parte do médico recém-arvorado em Chefe máximo da Igreja Etíope. Como terá D. João Bermudes, o novo Abuna, conseguido conciliar a filosofia trinitária da Igreja Romana – da qual aprendera na catequese e ao longo da vida adulta – com a doutrina monofisista da Igreja Etíope, eis um mistério que seria interessante algum investigador da História da Diplomacia tentar descortinar.

 

O que se sabe é que mal foi empossado, logo o Imperador lhe «pediu» que chefiasse embaixada a Roma e, daí, a Lisboa: (…) & mais me rogaua que por my, & por elle, & todos seus Reynos fosse a Roma a dar obediecia ao S. Padre: e dahi viesse a Portugal a dar cõcrusã a hua ebaixada q qua tinha mandada per hu homem daquella terra chamado Tegazauo (…)

 

Da diligência junto da Santa Sé, conta o próprio que: (…) cheguey a Roma presidindo na See Apostólica o Papa Paulo terceiro o qual me recebeo cõ muyta clemência & fauor, & me confirmou tudo o q de la trazia feyto, & a meu requerimento tornou a retificar tudo, & me mandou assentar na cathedra de Alexandria, & que me intitulasse Patriarcha, & Pontífice daqlla See (…)

 

Zagazabo (e não Tegazauo como lhe chamara D. João Bermudes), bispo etíope, chefiara a segunda embaixada do Preste João a Lisboa cá chegando em 1527. O objectivo era o mesmo do da anterior: estabelecer uma aliança que permitisse assegurar a sobrevivência da Etiópia como reino cristão totalmente cercado por aguerridas potências muçulmanas.

 

Tinham-se passado cerca de 10 anos e o Imperador não tinha notícias do seu embaixador. Eis ao que vinha D. João Bermudes: saber se Zagazabo era vivo e se a desejada aliança com Portugal era possível.

 

D. João III recebeu muito bem a embaixada do Preste João e logo tratou de lhe juntar Zagazabo que por aí andava no «bem bom» sem nada fazer de útil quer para Portugal quer para o Imperador da Abissínia, como então se chamava à Etiópia. D. João Bermudes não nos deixa dúvidas sobre o assunto: (…) que auia doze annos que qua estava, se negociar cousa algua por sua mera negligencia. Pello q o Emperador Onadinguel me mandou q lhe tirasse o carrego de embaixador, & o prendesse & levasse comigo preso.

 

Dos pedidos do Preste João ao nosso Rei, há a salientar – para além de soldados e armas – o do casamento dos filhos dos dois monarcas a fim de aproximar e unir os dois povos e o do envio de técnicos que o ajudassem a desviar o curso do Nilo assim votando à desertificação o seu inimigo do norte, o Egipto.

 

Conta-nos a História que D. João III não casou o seu filho com nenhuma princesa etíope; conta-nos a realidade actual que o Nilo continua a correr pelo curso que a Natureza lhe deu.

 

Como resultado da sua vinda a Lisboa, D. João Bermudes conseguiu uma força expedicionária de 450 homens que muito ajudaram a preservar a segurança etíope.

Chegados à Etiópia em 1541, assumiu o comando dessa força expedicionária D. Cristóvão da Gama, filho do célebre navegador e por lá andaram a acudir aos interesses do Imperador Abexim até que, já fartos de muitas tropelias, constatando que as riquezas do «reino do ouro, do incenso e da mirra» não passavam de pura imaginação, decidiram regressar a Portugal. Mas o Imperador não os queria deixar partir e tiveram que fugir. Foi nessa fuga que morreu em combate D. Cristóvão da Gama. D. João Bermudes já se tinha livrado da mitra e do báculo conseguindo chegar ao Mar Vermelho onde, em Massuá, foi recolhido por uma armada portuguesa. Corria o ano de 1559. Por Diu e por Goa, viajou para Lisboa...

 

Finalmente em sossego, entreteve-se D. João a escrever as memórias, livro que dedicou a D. Sebastião, ali relatando os acontecimentos mais atribulados da sua vida de grande aventureiro.

 

Faleceu em paz no dia 30 de Março de 1570 em S. Sebastião da Pedreira, então arrabalde de Lisboa em cuja igreja foi sepultado e onde ainda hoje pode ser visitado no seu túmulo. Mais exactamente, no fim da coxia central, na base do degrau fronteiro ao altar-mor.

 

Depois de tanta tropelia, bem merece que lhe votemos: requiescat in pace.

 

Lisboa, Abril de 2011

 

Henrique Salles da Fonseca

 

 

BIBLIOGRAFIA:

 

Curto, Pedro Mota – HISTÓRIA DOS PORTUGUESES NA ETIÓPIA (1490-1640), Ed. Campo das Letras, Outubro de 2008, (pág. 193 e seg.

 

(*)

http://www.pbase.com/image/108171571

 

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publicado por elosclubedelisboa às 00:13
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2 comentários:
De Henrique Salles da Fonseca a 11 de Julho de 2013 às 08:41
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Keith Xavier de Herédia gosta disto.


De Henrique Salles da Fonseca a 16 de Julho de 2013 às 21:41
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Miguel Magalhães Ferreira, Maria José Leite, João Belém e Cristina Ferreira Gândara gostam disto


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