Sábado, 2 de Abril de 2011

TRIBUTO AO JAPÃO

 

O mundo inteiro tem assistido, horrorizado, ao descomunal desastre a que o Japão está sendo acometido. E se acompanhamos a sua dor, ao mesmo tempo nos rendemos à sua extraordinária capacidade de sofrimento e serenidade.

Hoje fui buscar um texto do sempre grande admirador e apaixonado pelo Japão, Wenceslau de Morais, que nos dá uma pequenina ideia da filosofia deste povo, que apesar de tudo não elimina a sua dor. A dor de cada um não há quem possa medir. E toda a dor merece o nosso respeito.

Transcrevi há dias um texto do livro “O Bon-Odori em Tokushima”, mas vem agora a propósito a explicação do título deste livro.

 

 

A dança do Bon-Odori

Bon-Odori. Estranha frase japonesa; mais do que estranha, – incompreensível -, para leitores da minha terra. Eu explico. Bon é um vocábulo budístico, que significa a festa dos mortos. Com efeito, há no Japão, em cada ano, um período, geralmente de 13 a 15 do 7° mês do ano lunar, durante o qual se festejam os mortos; festejam, o que marca profunda distinção entre esta comemoração japonesa e a comemoração católica do Dia de Finados. Odori quer dizer simplesmente: dança. Bon-Odori é pois a dança da festa dos mortos, mística cerimónia congratulatória, persistindo desde os remotos tempos bárbaros, pela qual a família japonesa honrava por todo o império os seus defuntos; honrava e honra ainda, onde a ocidentalização dos costumes, na sua acção demolidora, ainda não abriu brechas nas velhas crenças, nas usanças populares.

Tokushima, onde me encontro, é uma cidade tranquila da costa da ilha de Shikoku, pouco distante de Osaka e de Kobe; mas cujo povo se mostra estranhamente conservativo nos seus costumes. A cidade é famosa, desde tempo distante até hoje, pelo seu Bon-Odori.

Ora, em Kobe, onde fiz uma longa permanência, gente de Tokushima contava-me frequentemente maravilhas do seu portentoso Bon-odori. Tantas vezes as alusões se repetiram, tantas vezes o shamisen, a guitarra indígena, me tocou aos ouvidos a toada com que a chusma vai rompendo pelas ruas e dançando ao mesmo tempo, que há cerca de seis ou sete anos, desejoso de ver pelos meus olhos o Bon-odori em Tokushima, decidi-me por uma excursão de poucos dias, indo à cidade em época própria. Completa desilusão, porém tempo perdido. A quadra é traiçoeira. É então que se desencadeiam vulgarmente os terríveis tufões do mar da China; atingindo por vezes as costas do Japão, já enfraquecidos de ímpetos, mas ainda bastante tormentosos para causarem no país graves estragos.

Mas falemos da excursão. Já quando eu ia de viagem, a bordo de um pequeno vapor de carreira, de Kobe para Shikoku, o vento começou a soprar rijo, o céu a anuviar-se, o mar a enfurecer.

Em Tokushima, um temporal tremendo, rajadas formidáveis; chuvas diluviais; a cidade inundada; perdas de vidas; destroços importantes; um, de entre muitos, foi a completa demolição da ponte de Tomidá, só há pouco reconstruída. Claramente, não se comemorou naquele ano o Bon-odori em Tokushima.

Há pouco arremessou-me o destino de novo a esta cidade, não por alguns dias, mas por muitos dias; onde venho viver; onde, talvez venho morrer; ...

Vi, há alguns meses, por uns belos dias estivais, o Bon-Odori em Tokushima, em todo o seu clássico brilhantismo, em todo o seu místico frenesi de festa consagrada a todos os defuntos; dias de excepcional confraternização terrestre entre vivos e mortos, cada qual acarinhando os seus entes queridos que se foram e que envolvem, em espírito, ao lar familiar, por curtas horas; eu, pobre ignaro, de mistura com a multidão dos crentes, evocava também, por sugestão do meio, alguns mortos do meu conhecimento.

Comento agora: provavelmente, continuarei a ver aqui o Bon-Odori, por mais um ano, por mais dois anos, por mais três, eu sei lá... e após um ano virá, próximo, sem dúvida, em que o Bon-Odori volte a animar as ruas da cidade com as suas procissões festivas, Bon-Odori que eu então não verei, mas de cuja comemoração piedosa a minha alma penada, de forasteiro, que teve o capricho de vir aqui depor o mísero despojo do seu invólucro terrestre, poderá reclamar, não sei se com pleno consentimento de Buda, uma parte em seu favor...

---

Gostaria de me juntar a um próximo Bon-Odori. Mas como ocidental, em vez de dançar, eu choraria pelos seus mortos.

Com a lição que o mundo está a receber do civismo e da filosofia dos japoneses, muito lhes desejamos que não deixem enfraquecer, muito menos desaparecer, as suas tão bonitas tradições.

 

Rio de Janeiro, 18 de Março de 2011

 

Francisco Gomes de Amorim

 

Foto:http://www.google.pt/imgres?imgurl=http://www.cozinhajaponesa.com.br/images/200711/0002_Bon_Odori_Dancer.jpg&imgrefurl=http://www.cozinhajaponesa.com.br/V04/artigosjaponeses_d.asp%3Fs%3D2%26c%3D1&usg=__UW5BZhd9zxuheJGADO-8DMTzjno=&h=480&w=640&sz=174&hl=pt-pt&start=0&zoom=1&tbnid=g0s7aHhdgP9BgM:&tbnh=120&tbnw=126&ei=CZaJTfCfMc7xsgbP2Z2kDA&prev=/images%3Fq%3DBon%252BOdori%26um%3D1%26hl%3Dpt-pt%26sa%3DN%26biw%3D1007%26bih%3D681%26tbm%3Disch&um=1&itbs=1&iact=hc&vpx=250&vpy=408&dur=1467&hovh=194&hovw=259&tx=130&ty=113&oei=CZaJTfCfMc7xsgbP2Z2kDA&page=1&ndsp=20&ved=1t:429,r:16,s:0

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publicado por elosclubedelisboa às 09:27
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