Sexta-feira, 1 de Abril de 2011

O FEITIÇO DE ÁFRICA

 

 

 

Ontem fui abastecer o carro de gasolina. A empregada que me atendeu era muito morena, quase negra, mas não tinha aquelas feições tão características dos negros. 

 

Perguntei-lhe: "Você donde é?" "Sou de Angola", respondeu-me sem hesitar. "De Luanda?", insisti. "Não, sou da Lunda, do interior, para leste". O seu nome próprio era português, que já esqueci, mas o apelido era Henda. "Você é luena, lá para Vila Luso?", avancei. "Sim, sim, sou luena". "E você ainda fala luena?" "Eu já não falo, mas quando a minha avô me fala em luena, eu entendo." 

A moça, ainda bastante nova, perdera o conhecimento activo da sua língua original, mas conservava ainda o conhecimento passivo. 

"Como se diz "filho" em luena? "Mona"?", aventurei. A moça abriu-se num sorriso de satisfação: "É sim! "Mona iami", "meu filho". Eu acertara em cheio.

 

 Em quimbundo, a língua do Cuanza Norte  (Luanda e Malange), filho diz-se "mona" e faz o plural "ana". [A letra da "Portuguesa",  traduzida para quimbundo, começa assim "Ana a kalunga" = "Filhos do mar]. Nesta língua, "meu filho" diz-se "mon'ami". Isto não quer dizer, evidentemente, que o quimbundo e o luena sejam inteligíveis entre si, mas muita coisa deve haver em comum, pois são duas línguas da mesma família, a família linguística bantu.

 

Quando cheguei a casa fui consultar um livro sobre os luenas que comprei num alfarabista há já bastantes anos, e lá encontrei "muâna" = filho, "iami" meu.

A moça da estação de serviço ficou encantada com o meu conhecimento, por muito pouco e rudimentar que fosse, e despedimo-nos com um aceno amigável de mãos. Fiquei contente.

 

 

«Mulher Luena», pintura de Neves de Sousa (*)

 

O livro referido foi impresso em Lisboa pela Agência Geral do Ultramar em 1954,  e foi escrito em 1932 ou 33 pelo Chefe das Circunscrições de Fronteira do Dilolo e do Além-Zambeze. Em anexos mostro o aspecto da capa do livro e uma fotografia do autor, tirada em terra de luenas, junto da lago Dilolo,  em 1927, com uma bebé filha do soba local.  

E pensar que se essa menina sobreviveu até hoje, terá os seus 85 anos!

 

O livro tem muitas fotografias, mas de pouca qualidade, e um vocabulário luena-português.


27 de Março de 2011


Joaquim Reis

 

(*) http://bp0.blogger.com/_yEum_8cpb_s/SGe3-yIAz1I/AAAAAAAAC94/61cpWygATWU/s1600-h/ZNS+-+Mulher+Luena.jpg

 

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publicado por elosclubedelisboa às 08:37
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